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Do dado à decisão: o que a São Paulo Climate Week revelou sobre gestão corporativa de carbono
Existe um calendário climático global que pauta as conversas mais relevantes do setor corporativo ao longo do ano. Climate Weeks acontecem em cidades como Nova York, Londres e São Francisco, cada uma com seu foco particular. A de Nova York, a maior delas, acontece em setembro paralelamente à Assembleia Geral da ONU. Londres concentra finanças verdes e sistemas climáticos. São Francisco aposta em startups e inovação local.
São Paulo entrou nesse calendário há três anos. A terceira edição da São Paulo Climate Week, realizada de 3 a 7 de agosto de 2026, mobilizou mais de 200 organizações em mais de 300 atividades pela cidade. A COP30, realizada em Belém no final de 2025, deixou um legado claro: lideranças brasileiras saíram do evento com uma pressão diferente sobre os ombros. O mundo olhou para o Brasil como anfitrião e cobrou coerência. Essa cobrança esteve presente em muitas das conversas desta semana.
A SINAI participou de múltiplos eventos ao longo da semana. Dois se destacaram: um almoço executivo no Cubo Itaú durante o Brazil Climate Solutions, na sexta-feira, e a primeira edição brasileira do Climate Leaders Exchange, um encontro executivo invite-only realizado em parceria com a EBP no dia 6. O que mais ficou em ambos não foi o que foi apresentado. Foi o nível das conversas que aconteceram.

SBCE e mercado de carbono: o Brasil na hora da definição regulatória
Grande parte dos painéis executivos da semana girou em torno do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. O SBCE dominou as conversas com razão. O Brasil está num momento em que as decisões de infraestrutura regulatória tomadas agora vão determinar sua posição no mercado global de carbono pela próxima década.
As discussões deixaram claro que a construção do mercado regulado exige avanços simultâneos em frentes distintas: a técnica, com metodologias, mensuração, verificação e rastreabilidade dos créditos; a jurídica, com definição da natureza dos ativos, regras de conversão e prevenção de dupla contagem; e a financeira, com formação de preço, liquidez e desenvolvimento dos mercados primário e secundário. O sistema financeiro brasileiro deixou claro que já tem capacidade para financiar o ciclo completo do crédito de carbono. O gargalo está na regulação da CVM, que ainda precisa definir em quais condições esse crédito será tratado como valor mobiliário.
Também foram debatidos os ITMOs, resultados de mitigação autorizados para transferência internacional no âmbito do Artigo 6.2 do Acordo de Paris. A decisão sobre as quantidades que poderão ser exportadas afeta diretamente a contabilização da NDC brasileira. O Brasil precisará de uma posição clara sobre para quais mercados e em que janela temporal essas transferências fazem sentido estratégico. Há ainda outros mecanismos com discussões em aberto como Corsia da qual o país demorou para estruturar política de incentivo para biocombustíveis de aviação, e afeta diretamente o setor aéreo que já tem entrada prevista no SBCE para 2027.
O Brasil tem vantagens competitivas reais na geração de créditos de alta integridade e existem janelas de oportunidade para atender a demanda inicial. Além disso, mesmo que o país cumpra a NDC ainda terá demanda por crédito.Converter esse potencial em projetos financiáveis exige regulação funcional, dados auditáveis e ambiente favorável aos negócios. Os três ainda estão sendo construídos ao mesmo tempo.
Escopo 3 como ferramenta de decisão: o que as empresas estão fazendo na prática
Outro conjunto de conversas chamou mais atenção pelo nível de concretude. Empresas de infraestrutura, indústria pesada e bens de consumo estavam discutindo como carbono está entrando nas decisões do dia a dia.
Critérios climáticos em processos de procurement. Comitês de sustentabilidade com participação de CEO e CFO. Cláusulas contratuais vinculando fornecedores a metas de redução. Ferramentas de simulação para avaliar o impacto de escolhas de fornecedor na pegada total de carbono. Em várias dessas conversas, o que apareceu não foi a pergunta sobre como medir emissões. Foi o que fazer com o dado depois que ele já existe.
Esse é o deslocamento mais relevante que observei na semana. O inventário deixou de ser uma entrega anual de compliance para se tornar insumo de decisão em tempo real. Sustentabilidade, procurement, finanças e jurídico estão começando a trabalhar com as mesmas métricas. Ainda é exceção, mas nas organizações mais avançadas já é o modelo padrão. A plataforma de gestão de carbono da SINAI foi construída para isso: transformar o inventário em algo que a liderança usa, não apenas arquiva.
Cases reais de descarbonização na cadeia de suprimento: Natura e ArcelorMittal
O Climate Leaders Exchange São Paulo foi a primeira edição brasileira de uma série global de encontros executivos da SINAI. Já aconteceu em Chicago, em abril de 2026, durante o Sustainability LIVE US Summit. Em setembro chega a Nova York, durante a Climate Week NYC. A proposta é sempre a mesma: um grupo pequeno e selecionado de líderes, com painel moderado por profissionais de empresas que estão resolvendo os problemas na prática, sem apresentações institucionais.
A edição de São Paulo foi realizada em parceria com a EBP, integrando o CLE ao Global Sustainability Solutions Summit. João Castro, Head of Corporate Sustainability Services da EBP, participou do painel ao lado de João Teixeira, Gerente de Sustentabilidade da Natura, e Felipe Said, Especialista em Sustentabilidade da ArcelorMittal. Eu moderei a conversa com uma pergunta direta: o que as organizações estão fazendo com os dados de Escopo 3 que já têm?
A Natura tem inventário de carbono há mais de dezesseis anos. O que João Teixeira descreveu não foi a evolução metodológica desse inventário. Foi o que aconteceu quando ele ficou granular o suficiente para virar ferramenta operacional. O time de suprimentos da Natura consegue hoje puxar a intensidade de carbono de um fornecedor específico antes de uma reunião de negociação, simular diferentes cenários de mix e entender qual configuração traz menor pegada. Usa esse dado na mesa comercial. O inventário passou a ser parte do processo de compras, não um relatório à parte.
A ArcelorMittal chegou ao mesmo ponto por uma rota diferente. O CBAM, mecanismo europeu que incide sobre produtos como o aço, exige dados de ciclo de vida dos insumos utilizados na produção. Sem esses dados primários dos fornecedores, a empresa fica sujeita aos fatores default do mecanismo, calibrados pelo segmento mais emissor da indústria global, o que representa uma desvantagem financeira direta e crescente. Felipe Said descreveu como isso transformou a conversa interna: carbono passou a influenciar custo, posicionamento de produto e acesso ao mercado europeu. Critérios climáticos entraram em contratos de fornecimento com participação ativa do jurídico. O CBAM tende a se expandir para outros setores, o que coloca a ArcelorMittal numa posição de referência para indústrias como a automotiva, que precisarão percorrer o mesmo caminho.
João Castro trouxe a perspectiva de quem acompanha múltiplas empresas nessa transição. A observação que ficou: nas organizações em que o carbono está influenciando decisões, não é porque a área de sustentabilidade convenceu o board. É porque alguém encontrou a linguagem certa para conectar toneladas de CO₂ a custo real e risco de mercado. Sem essa tradução, o inventário continua sendo uma entrega de compliance. O módulo Reduzir da SINAI existe para fazer essa ponte: modelagem de abatimento com impacto financeiro calculado, para que a conversa com finanças tenha os números certos na mesa.
O papel do Climate Leaders Exchange na construção de um ecossistema climático corporativo
Criar um espaço onde líderes falem com honestidade sobre o que está funcionando é mais difícil do que parece. Grandes eventos de sustentabilidade tendem a concentrar apresentações institucionais. O Climate leaders Exchange foi desenhado para ser diferente: sem palco, sem pitch, com perguntas que normalmente escapam os grandes públicos.

O encontro no Cubo Itaú, na sexta-feira, teve um caráter mais informal. Foi um almoço executivo com líderes de sustentabilidade de diferentes setores durante o Brazil Climate Solutions. O que mais marcou foram as perguntas que os participantes estavam fazendo dentro das suas próprias organizações: como convencer o CFO? Como integrar carbono ao planejamento estratégico sem criar uma estrutura paralela? Como engajar procurement sem sobrecarregar o time?
Essas perguntas mostram maturidade. Já não é preciso explicar por que Escopo 3 importa. A conversa avançou para o como, e isso é uma mudança real.
O Climate leaders Exchange e o almoço Executivo no Cubo foram espaços para ouvir o que as lideranças estão construindo, onde estão travando e o que tem dado resultado. Essa escuta é parte do que a SINAI quer construir junto ao ecossistema climático corporativo no Brasil e nos mercados em que atua.
Em setembro, a série chega a Nova York durante a Climate Week NYC. Confira nossas redes sociais para mais informações.

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